19 de fevereiro de 2013

Crítica | As Sessões

Título original: The Sessions | País de origem: Estados Unidos | Ano de lançamento: 2012 | Dirigido por: Ben Lewin | Escrito por: Ben Lewin baseado no artigo de Mark O'Brien | Elenco: John Hawkes, Helen Hunt, William H. Macy, Moon Bloodgood, Annika Marks, Adam Arkin, Rhea Perlman e W. Earl Brown | Duração: 1h35min.




Filmes como Intocáveis ou este As Sessões desarmam com um estalo de dedos as armas da patrulha politicamente correta. Basta para isto que o protagonista portador de uma deficiência ou doença incapacitante seja o primeiro a aceitar a condição e, sem um resquício de autocomiseração, derrube o muro do preconceito alterando, consequentemente, a percepção daqueles ao redor. Melhora mais quando o faz com muito bom humor, como é o caso daquele que é o maior sucesso de bilheteria da França, ou então com doçura e suavidade como nesta história real de como o poeta Mark O'Brien decidiu perdeu a virgindade após mais de 30 anos confinados a uma maca após contrair poliomielite aos 6 anos de idade.

Adaptado por Ben Lewin, que também dirige, a partir do artigo escrito pelo próprio Mark O'Brien On Seeing a Sex Surrogate, o qual você pode ler aqui em inglês, o roteiro nada mais faz do que reaproveitar a base de uma comédia romântica conferindo, porém, um tom adulto e menos clichê e substituindo os jogadores sem desvirtuar os esteriótipos nos quais eles se encaixam. O inseguro apaixonado agora tem os porquês de ser assim, pois é visto pelo sexo oposto de todas as maneiras, menos com interesse sexual, e ainda está preso ao tabu da igreja; o melhor amigo e incentivador agora veste a batina do padre Brendan (William H. Macy), um hippie com cabelos compridos e ocasionalmente uma fita amarrada na cabeça; e finalmente, o objeto de afeição do protagonista, a terapeuta sexual Cheryl (Helen Hunt), é tão desinibida e ousada quanto se poderia esperar nas tais sessões do título em que ela tenta fazer com que Mark atinja a consciência corporal e a masculinidade plena através de exercícios sexuais.

Mas o que torna esse trabalho verdadeiramente especial e distinto, além dos inusitados protagonistas, é a forma sutil com que Ben Lewin introduz os previsíveis pontos de virada, sobretudo Mark apaixonar-se por Cheryl. Falta-lhe na verdade, o afã de cumprir os estágios que já estamos carecas de conhecer dos filmes do gênero e sem esta urgência, ele pode desenvolver naturalmente uma mútua aproximação cega à doença mas consciente de que o relacionamento é improvável, já que Cheryl é uma mãe de família bem tipicamente norte-americana. Definidos desde cedo o conflito, a incerteza de sua superação e o escasso período de tempo de convivência de só 6 sessões, nada impede entretanto de ambos preencherem as lacunas na vida um do outro com um senso de humor agridoce e coerente à meia-idade dos personagens. Neste sentido, o roteiro de Lewin tem um humor autodepreciativo jamais ofensivo (Mark questiona à sua assistente se ela "precisa de ajuda com a mobília" e um gato travesso revela-se um pesadelo para alguém incapaz de coçar o próprio rosto) misturado às apimentadas confissões no átrio da igreja e belos momentos em que Mark relembra frustrações amorosas passadas sempre com um lirismo de palavras mais do que apropriado para o poeta.

O que inevitavelmente leva à grande atuação de John Hawkes, injustamente esnobado pelo Oscar, expressando múltiplos sentimentos, como decepção, alegria, nostalgia, excitação e curiosidade, só com singelas mudanças na inflexão da voz fraquejante. Também deve-se destacar o visível desafio físico que deve ter sido permanecer o tempo inteiro curvado preso à cama ou então ao pulmão de aço artificial, com a palma da mão direita virada para cima e a da mão esquerda rija presa ao lado do corpo, em uma composição (literalmente!) disciplinada e convincente. Enquanto isso, Helen Hunt chama a atenção mais por causa da corajosa entrega à personagem, que atravessa boa parte da produção nua, do que por sua atuação, prejudicada por cirurgias plásticas e aplicações de botox que lhe retiraram muito da expressividade facial e a tornaram uma estranha versão de uma barbie cinquentona. Ainda assim, a atriz é hábil em retratar na voz tenra e no toque carinhoso e gentil a cumplicidade construída entre ela e Mark.

Apresentando uma boa e discreta direção de arte, que afixa à distância o diploma de Cheryl e contrasta as figuras religiosas com o que Mark persegue com afinco justificando um dos aspectos da sua personalidade, e uma montagem excelente, sobretudo no raccord que associa o pulmão de aço a um certo objeto de madeira, As Sessões é um romance adulto gostoso, leve e libertador.

P.S.: Mark O'Brien foi tema do Curta de Documentário Breathing Lessons: The Life and Work of Mark O'Brien vencedor do Oscar em 1997 e que é ótimo. Vale a pena conferir.




11 de fevereiro de 2013

Crítica | O Voo

Título original: Flight | País de origem: Estados Unidos | Ano de lançamento: 2012 | Dirigido por: Robert Zemeckis | Escrito por: John Gatins | Elenco: Denzel Washington, Kelly Reilly, Bruce Greenwood, John Goodman, Don Cheadle, Brian Geraghty, Tamara Tunie, Melissa Leo, Nadine Velazquez, | Duração: 2h18min.




No retorno ao live action após mais de uma década desde o lançamento do ótimo Náufrago, hiato no qual se dedicou a três boas animações criadas a partir da técnica de captura de performance, Robert Zemeckis parece um bocado enferrujado no regular O Voo. Não em matéria de técnica, algo que domina e ensina, mas em como pretende verbalizar o que deseja extrair da história do piloto de avião Whip Whitaker que, embora esteja sob efeito de entorpecentes, ainda consegue salvar as vidas de dezenas de passageiros a bordo de sua aeronave com uma manobra inacreditável e ousada. Estaria ele tentando reproduzir o questionamento de Crime e Castigo, escrito por Dostoiévski, perdoando um crime graças ao bem maior praticado por alguém extraordinário; ou talvez elaborar um novo estudo de personagem do tormento infligido pelo vício, no caso o alcoolismo; ou então, delinear o arco dramático de um sujeito prepotente e egocêntrico transformado pelas circunstâncias e religião? Abraçar tudo isso seria ambicioso, mas infelizmente é desajeitadamente realizado pelo diretor.

Roteirizada pelo indicado ao Oscar John Gatins, a história exaure as possibilidades proporcionadas pelo acidente aéreo, porém sem aprofundar-se em nenhuma. A imprensa e a opinião pública celebram Whip (Denzel Washington) por ter salvado quase todas as almas a bordo, religiosos nomeiam Deus autor do milagre, enquanto a companhia aérea e o departamento jurídico jogam a responsabilidade de indenizar no colo da fabricante de aviões e da seguradora. No meio do circo, após se isolar na sua fazenda, Whip envolve-se com a ex-usuária de drogas Nicole (Kelly Reilly) e tenta permanecer sóbrio, sem sucesso, para testemunhar perante a comissão do governo federal que apura o acidente. Há inclusive um exame de sangue que comprova que Whip pilotava embriagado, algo que o advogado Hugh Lang (Don Cheadle) sem maiores dificuldades desqualifica, evitando assim que a história converta-se em um drama jurídico. E entre alfinetadas ao fundamentalismo religioso e à legislação aérea que descaracteriza os 2 tripulantes mortos para fins de indenização por já saberem de antemão dos riscos, resta somente a batalha de Whip contra os demônios no fundo da garrafa.

Aí entrar a competente atuação de Denzel Washington que, mesmo cheia de maneirismos e vícios repetidos no decorrer da carreira (e repare no encolhimento do lábio inferior), convence do turbulento eu interior de Whip, palco da disputa entre o frio e controlado piloto capaz de aterrissar um avião nas piores condições contra o fraco e emocionalmente perturbado alcoólatra, pai de um filho que não vê há anos e incapaz de lidar com as más notícias sem recorrer a um gole da garrafa. Tridimensional e bem apresentado por Robert Zemeckis logo na cena inicial que escancara o caco da sua vida, Whip sofre de um grave problema: é difícil identificar-se com um arrogante e autossuficiente sujeito e nem o ato heroico praticado basta para passar a mão na sua cabeça já que na maior parte, ele é apenas um babaca. Se comparássemos com Bad Blake de Coração Louco, o músico alcoólatra interpretado por Jeff Bridges no papel que lhe rendeu o Oscar, Whip sequer despertaria o mínimo de simpatia e a sua mudança de atitude no terceiro ato sofre de inverossimilhança, prejudicando dentre outras coisas descobrir se Zemeckis estava ironizando a religião ou endeusando-a.

Perdoado o equívoco, Zemeckis é bem-sucedido na escolha de enquadramentos e na mise-en-scène, procurando a cada nova cena pôr-se um passo a frente do espectador e chocá-lo: um enfermeiro encobre até certo momento os pinos parafusados no fêmur quebrado do co-piloto, enquanto o ângulo e um discreto movimento do rosto revelam a cicatriz na bochecha da comissária de bordo e, claro, o belo e sutil movimento de câmera que revela dezenas de garrafas de cerveja espalhadas em frente a Whip. Zemeckis também é econômico e valoriza a percepção do espectador revelando o rumo de uma reunião apenas pelo corte seco que a sucede e que encontra Whip bêbado de novo. Entretanto, é no acidente aéreo que o cineasta maravilha, construindo uma grande sequência claustrofóbica, tensa e quase tão impactante como a vista em Voo United 93 (para mim, o melhor acidente já retratado no cinema).

Porém, nem os melhores esforços do cineasta compensam o inchaço de personagens na narrativa, e uns que sequer dizem a que vieram, como o paciente da ala terminal de câncer com conceitos próprios sobre Deus e Harling Mays (John Goodman), o fornecedor de drogas extravagante e fixado em Rolling Stones de Whip. Nem mesmo Nicole, muito bem interpretada por Kelly Reilly com seu jeitinho ímpar de tremer as pálpebras, faz grande diferença e desconfio que uma rescrita do roteiro poderia riscar a moça da história com mínima dificuldade. E no cabo de guerra em que muitos ajudam Whip a superar o vício, ou ao menos evitar a sua prisão, é o autodestrutivo piloto o único capaz de vencer a luta - sempre é - fazendo com que o investimento com personagens e passagens redundantes pareça desperdiçado e comprometendo o ritmo da narrativa que faz as mais de 2 horas parecerem mais extensas do que o normal.

Para evitar piadas prontas com o título - e há várias -, O Voo é apenas uma viagem maçante e sem grandes emoções.



9 de fevereiro de 2013

Crítica | Meu Namorado é um Zumbi

Título original: Warm Bodies | País de origem: Estados Unidos | Ano de lançamento: 2013 | Dirigido por: Jonathan Levine | Escrito por: Jonathan Levine baseado no livro de Isaac Marion | Elenco: Nicholas Hoult, Teresa Palmer, Analeigh Tipton, Rob Corddry, Dave Franco e John Malkovich | Duração: 1h37min.




Desde A Noite dos Mortos-Vivos (1968), em que George Romero transformou criaturas exumadas da terra em ícones do cinema, os zumbis e as evoluções posteriores têm sido melhor usados como metáfora da sociedade contemporânea do que somente instrumentos para assustar. Meu Namorado é um Zumbi em nada diverge disso partindo do conflituoso R para discutir a urgência do ser humano (ou zumbis, se preferirem) de se conectar com alguém, uma mensagem estampada já na primeira cena e que, por mais óbvia que seja, não perde a sua relevância ao discutir o ápice do isolamento provocado por smartphones e a irônica sensação de conectividade que eles produzem.

Escrito por Jonathan Levine, que também dirige, o roteiro estabelece as regras de comportamento dos Cadáveres cedo na narrativa in off de R (Nicholas Hoult), um cadáver reflexivo e repleto de dilemas existenciais com um quê neurótico, e de quebra responde algumas perguntas deixadas em aberto por George Romero, como o porquê dos zumbis andarem em bandos e a predileção por cérebros humanos como maneira de consumir as memórias dos outros, uma ideia original que junto à reflexão proposta no parágrafo anterior, é a chave que rege as redes sociais. No entanto, a vida moribunda de R sofre uma mudança radical quando, durante um ataque a uma equipe humana que estava buscando mantimentos, ele se apaixona por Julie (Teresa Palmer, membra da escola Kristen Stewart de atrizes e com uma pitada de Naomi Watts), mas não antes de devorar o seu namorado Perry (Dave Franco, a cara xerocopiada do irmão James). Dedicado a mantê-la segura, R ainda tenta conquistá-la apesar das adversidades, já que além do fato dele ser um cadáver, Julie ainda é filha do líder da resistência Grigio (John Malkovich), cuja rixa com os Cadáveres é bem mais pessoal.

A princípio uma esquisita combinação de gêneros bem díspares, o pós-apocalíptico com zumbis e a comédia romântica, a narrativa demora um bocadinho para encontrar o equilíbrio satisfatório, mas quando o faz também ultrapassa as barreiras impostas pelos rígidos clichês dos gêneros originais e parte disso vem da figura do contraditório protagonista. Com cicatrizes no rosto iguais às de Edward Mãos de Tesoura, R compreende a natureza animalesca dos Cadáveres, a fome que sentem e a ameça que representam, e até parece apreciar devorar Perry, embora esforce-se para convencer o espectador que não. Porém, a caracterização cuidadosa que parte da ótima maquiagem e do figurino - um moletom vermelho que o diferencia de todos os demais zumbis e lhe dá vida através da cor -, à narração essencial para que uma criatura monossilábica com dificuldade de encadear uma frase expresse-se e à boa atuação de Nicholas Hoult, cujo rosto infantil contrapõe-se ao rosto ensaguentado após um banquete, ajudam a aceitar a ingenuidade e boa-vontade de R em ser uma "pessoa" melhor e, consequentemente, o relacionamento impossível com Julie.

Também ajuda a insegurança do rapaz diante de Julie, agindo como uma criança enquanto revela a sua coleção de vinis e durante um passeio de carro, sendo capaz ainda de roer-se por dentro até soltar uma pérola como "Este encontro não está indo bem. Quero morrer de novo". Uma pena então que depois de estabelecer corretamente o universo pós-apocalíptico destruído em cores azuis frias iguais aos pálidos Cadáveres e fugir de meia-dúzia de conflitos e resoluções artificiais, sendo honesto com a história que pretende contar (adoro particularmente a decisão de R de contar o que fez com Perry após hesitar durante o tempo necessário), o diretor Jonathan Levine acaba abraçando clichês bobos e descartáveis, como o que coloca os Cadáveres caminhando em câmera lenta em direção à tela, e momentos particularmente constrangedores nos inserts de um coração batendo e ganhando vida.

Mas o pior é o surgimento da amiga de Julie, Nora (Analeigh Tipton), cujos gritinhos, suspiros e ações destoam totalmente do filme que se estava contando até então (eu deveria ter suspeitado que ela retornaria após o close dado no seu rosto antes). A título de comparação, até o melhor amigo de R, interpretado pelo normalmente inconveniente Rob Corddry, consegue ser doce e prestativo sem sacrificar a verossimilhança do personagem, exceto o palavrão perdoável gritado em momento de empolgação. Já os Esqueléticos funcionam bem porque representam tanto a ameaça implacável que justifica erigir um muro (outro símbolo óbvio e eficiente da mensagem da narrativa) quanto o destino inevitável dos Cadáveres após determinado tempo de putrefação.

Com uma das melhores trilhas sonoras que ouvi recentemente, passando de Guns 'n Roses a Bob Dylan, Bruce Springsteen a Scorpions, para refletir com precisão o instável relacionamento de R e Julie, Meu Namorado é um Zumbi é uma versão inusitada de Romeu e Julieta em um mundo despedaçado, mas ultimamente capaz de ser curado pelo amor.




7 de fevereiro de 2013

50 Anos | Moscou contra 007

Título original: From Russia with Love | País de origem: Reino Unido | Ano de lançamento: 1963 | Dirigido por: Terence Young | Escrito por: Richard Maibaum e Johanna Harwood baseado no personagem criado por Ian Fleming | Elenco: Sean Connery, Daniela Bianchi, Pedro Armendáriz, Lotte Lenya, Robert Shaw, Bernard Lee, Lois Maxwell e Vladek Sheyball | Duração: 1h55min.




As aventuras de James Bond integram um subgênero próprio, com regras e estilo bem delineados, e tendo atingido o 23° filme na cronologia oficial da série, é inevitável que desde muito tempo rankings têm sido elaborados elencando o melhor e o pior do agente secreto. Talvez, portanto, o melhor elogio que posso oferecer a Moscou contra 007 é que este é para mim o número 1 da franquia. Inteligente, ágil, revelador, cheio de alternativas no roteiro intrincado (e também ironicamente simples) e exótico, a segunda aventura de 007 nos cinemas preocupa-se em estabelecer o que torna Bond uma ameaça tão grande aos planos da SPECTRE, a organização criminosa comandada por Blofeld, construindo um espião seguro de si além de um baita detetive, em vez de resumi-lo a um herói de ação com uma permissão para matar e uma fraqueza para mulheres bonitas.

Melhor de tudo isso é o que o roteiro escrito por Richard Maibaum e Johanna Harwood faz isso sem precisar de uma trama rocambolesca que envolva a dominação e a destruição da humanidade, mas "apenas" o roubo da decodificadora Lektor do serviço secreto soviético, visto por Blofeld como uma oportunidade de lucrar para a organização e também de vingar-se de James Bond (Sean Connery) após a morte de Dr. No. A partir daí, a número 3 na SPECTRE Rosa Klebb (Lotte Lenya), recruta a bela agente Tatiana Romanova (Daniela Bianchi) para seduzir o agente que, mesmo ciente de estar caindo uma armadilha, está suficientemente interessado em adquirir uma Lektor para o MI-6 que não titubeia em jogar o jogo. Em Istambul, Bond e Tatiana reúnem-se com o turco Kerim Bey (Pedro Armendáriz) e são seguidos de perto pelo assassino contratado Grant (Robert Shaw), um dos melhores vilões da franquia (tecnicamente, um capanga, conforme as regras, mas enfim).

Limitando-se a um número reduzido de personagens - e basta ver que há só uma Bondgirl na maior parte do tempo -, o diretor Terence Young aproveita o tempo para jogar luz em traços particulares de Bond, como um caso amoroso recorrente mantido há cerca de 6 meses e que diz muito da vida do agente fora do MI-6. Novamente, porém, é a atitude rigorosamente diligente de Bond que chama mais atenção, e assim como no filme anterior ele se manteve de vigília para surpreender o assassino no seu quarto de hotel, agora a primeira coisa que ele faz em Istambul é buscar por grampos no apartamento, ou quando retorna à cabine do trem, a primeira coisa que faz é lançar um breve olhar aos trincos de sua maleta para detectar se ela permanece intocada. Esta é também a única bugiganga que Bond carrega no decorrer da narrativa, ignorando as invenções mirabolantes (e divertidas) do Q e os carros de luxo com artilharia, mantendo um firme pé no chão condizente a uma abordagem que privilegia a espionagem à ação e que reflete até mesmo na postura de Bond em luto (noutras ocasiões, ele automaticamente soltaria uma piadinha).

Da mesma forma, a SPECTRE é satisfatoriamente descrita a partir de sua hierarquia e até a existência de um campo de treinamento demonstra os ambiciosos planos da organização, praticamente uma MI-6 maléfica, algo que o seu líder Blofed, adequadamente mantido nas sombras como um bom marionetista e dono de um senso de humor singularmente ácido ("precisamos desenvolver um novo veneno mais rápido", diz após os longos 12 segundos necessários para uma vítima padecer), certamente se orgulharia. Finalmente, nem Tatiana insiste na postura de donzela indefesa e inclusive é ela quem evita que Bond seja morto em determinado momento, subvertendo a ordem natural de como o cinema insiste em retratar essas coisas.

Prescindindo de grandes orgias explosivas e cenas de ação impactantes para envolver o espectador em sua história de espionagem na qual todos os lados estão enganando uns aos outros, Moscou contra 007 também tem uma canção original bacana e mantém tenso mesmo quem já sabe desde sempre que 007 vai vencer o dia.



Esta publicação faz parte do especial do Cinema com Crítica comemorando o aniversário de 50 anos de grandes clássicos do cinema. Na próxima quinzena, Dementia 13.

Crítica | Caça aos Gangsteres

Título original: Gangster Squad | País de origem: Estados Unidos | Ano de lançamento: 2013 | Dirigido por: Ruben Fleischer | Escrito por: Will Beall baseado no livro de Paul Lieberman | Elenco: Josh Brolin, Ryan Gosling, Sean Penn, Nick Nolte, Emma Stone, Josh Pence, Anthony Mackie, Robert Patrick, Michael Peña, Giovanni Ribisi e Mireille Enos | Duração: 1h53min.




Tenho certa inclinação por histórias de crimes, os seus anti-heróis cínicos, suas femmes fatales de batom e vestido vermelhos e toda a aura charmosa emanada dos tons néon dos grandes clubes onde estrelas e orquestras disputavam a atenção de fregueses bebendo garrafas de champanhe, alguns deles poderosos chefões do crime organizado. Não se engane, no entanto, que por causa disto Caça aos Gangsteres facilmente cairia nas graças deste crítico; pelo contrário, o novo trabalho de Ruben Fleischer, do ótimo Zumbilândia e do não tão bom 30 Minutos ou Menos, precisaria de muita competência para dividir a prateleira com os muitos clássicos do gênero. E no panorama geral, mesmo com graves problemas de tom e um roteiro problemático, ele até chega bem próximo da meta.

Ambientado no pós-guerra em Los Angeles, época em que o famoso letreiro do Mount Lee ainda lia HOLLYWOODLAND e ter uma pistola na gaveta da cozinha era sinal de prudência, o roteiro do iniciante Will Beall escancara a guerra pela alma da cidade dos anjos travada entre o ex-boxeador e agora gângster Mickey Cohen (Sean Penn, em uma atuação caricatural e menos eficiente do que de costume) e um esquadrão secreto de policiais incorruptíveis instituído pelo chefe de polícia Parker (Nick Nolte), no mesmo molde daquele de Os Intocáveis, liderado pelo sargento O'Mara (Josh Brolin). A ele, aliam-se o mulherengo Jerry (Ryan Gosling e sua voz estranhamente anasalada) e outros policiais melhor descritos pelos esteriótipos que representam: o durão Coleman (Anthony Mackie), o franco-atirador Max (Robert Patrick, saído dos grandes faroestes), o imigrante mexicano Navidad (Michael Peña) e o especialista em telecomunicações Conway (Giovanni Ribisi, enfim longe dos papéis de psicopata).

Linear, o roteiro restringe-se a estabelecer missões que aproximam a equipe do seu objetivo de desmantelar a quadrilha de Mickey Cohen e salta de uma para a outra sem maior inventividade ou estratégia, recorrendo a diálogos expositivos de O'Mara que estabelecem instintivamente o novo alvo (basta observar o que antecede as elipses da invasão ao cassino ou da colocação da escuta na casa de Mickey). O roteirista também não faz esforço algum para estabelecer a personalidade de O'Mara e Jerry, os personagens mais fortes da narrativa, resumindo-os a uma combinação de vários personagens saídos diretamente de livros de James Ellroy (autor de Los Angeles - Cidade Proibida e, dou o braço a torcer, uma boa inspiração sem sombra de dúvida). Sofre do mesmo trauma a bela Grace (Emma Stone, cujos cabelos ruivos e corpete vermelho a tornam imediatamente a versão carne e osso de Jessica Rabbit, de Uma Cilada para Roger Rabbit), o clichê ambulante da garota que pisa em Los Angeles com o desejo de se tornar mais uma estrela no calçadão de Hollywood mas encontra um destino bem diferente do sonhado.

Com problemas de desenvolvimento de personagens - de repente, Jerry sofre uma crise de ciúmes -, distrações artificiais e mal resolvidas - a esposa grávida de O'Mara - e um vilão com o chato hábito de matar seus capangas (nesses casos, sempre pergunto como ele continua recrutando mais gente), o roteiro funciona meio sem querer ao humanizar aqueles homens e transformá-los em reféns da sorte mais do que em hábeis policiais. Ver a evolução da equipe, portanto, é um dos prazeres da narrativa desde uma invasão malfadada a um cassino e a interceptação atrapalhada de um carregamento de heroína até o momento em que, seguros de si mesmos e tendo visto carnificina demais, eles começam a atuar em sintonia e com competência. Também ajuda o fato dos diálogos serem deliciosamente servidos com máxima ironia ("A cidade está debaixo d'água e você prefere pegar um balde em vez de um calção de banho") e Mickey Cohen, agora sim o personagem funciona, ser um bandido cego pelo próprio egocentrismo capaz de categorizar quem o persegue como sendo "contra o progresso".

Casa muito bem com isso a abordagem estilizada impressa por Ruben Fleischer que, longe de querer dirigir um filme historicamente correto e sério, opta por banhos de sangue bem elaborados, uma montagem imatura (e divertida) que associa um pedaço hambúrguer a um cérebro e o farto uso de câmeras lentas, além de tiroteios orquestrados com inteligência o bastante para permitir que o público identifique quem está onde e atirando em quem (o que nos dias de hoje tem sido pedir demais). Mas se a primeira metade aproveita o tom despretensioso e bonachão para borrar o lindo sépia da fotografia com tons vibrantes de vermelho sangue, a narrativa altera radicalmente a abordagem no decorrer do segundo ato com uma seriedade sequer sugerida a princípio.

E mesmo que a guinada no tom seja intencional e reflita a mudança da própria postura dos personagens diante das mazelas que se deparam, é triste verificar a covardia de Fleischer que apenas põe diante do cano de uma arma os coadjuvantes mais descartáveis e cujo destino poderia ser antecipado desde cedo. Assim, previsível como a antecipada luta mano-a-mano que encerra a narrativa (que contradiz o que Mickey Cohen afirma em determinado momento), Caça aos Gangsteres equilibra-se entre problemas e acertos, e estes, felizmente, são bem mais marcantes.